Um belo dia vi, do nada, minha testa ser invadida por quatro, cinco, seis caroços horrendos. Antes mesmo que eu me desesperasse, o queixo ganhou uns dois caroços daqueles e, por fim, exatamente na ponta do meu nariz, uma pipoca medonha apareceu e me transformou num verdadeiro monstro.
— Você tá igual à bruxa má da Branca de Neve! — disse Alice, suuuperfofa.
— Precisa de uma limpeza de pele! — alertou Duca.
— Você conhece alguém para me indicar? — perguntei.
— A minha mãe tem uma esteticista ótima.
— Ainda bem que ela vai ficar com a pele boa de novo, eu não agüentaria olhar pra Malu desse jeito por muito tempo. Cê tá muito, muito feia mesmo! — aliviou Nanda.
— Bom é que você não espremeu. Dizem que é pior. A pele vai ficando toda marcada e ganha aquele aspecto de areia mijada, sabe?
— Bom é que você não espremeu. Dizem que é pior. A pele vai ficando toda marcada e ganha aquele aspecto de areia mijada, sabe?
— Mas é verdade, a pele fica toda furadinha e...
— Já sei, não precisa repetir!
Não tive outro jeito a não ser ligar para a Cecília, a esteticista da mãe da Duca. Nunca tinha feito limpeza de pele, achava coisa de madame. Mas eu não podia virar um monstrinho justamente naquele momento, quando o Saulo, um gatiço do terceiro ano, estava começando a reparar em mim. Era muita injustiça.
— Vai doer um pouco, você sabe, né? — avisou Cecília, antes de dizer oi.
— Não! Ninguém me disse que dói.
— Mas dói. E a pele depois fica bem marcada, machucada. Você vai sair daqui com o rosto vermelho, mais empolado do que está, mas é normal. Amanhã acordará ótima, pode confiar em mim. Agora deita.
Quase não deitei. Quis sair correndo. Fiquei com medo da Cecília. Mas a vaidade falou mais alto e eu deitei. Ela começou passando um líquido cheiroso na minha pele. “Nada dolorido, isso é relaxante, isso sim”, pensei. Fechei os olhos, achando que a Cecília era uma exagerada. Mas, em pouco tempo, vi que não tinha exagero nenhum.
Depois de passar creminhos ásperos, gosmentos e fedorentos, começou a espremer as pobres das minhas espinhas com muita, muita raiva delas.
— Aaaaaaaiiii!!! — berrei com todas as minhas forças.
— Que é isso? Para ficar bonita tem que sofrer, não sabe? Deixa de frescura! Morte às espinhas! — gritou.
Após uma hora de tortura, saí de lá com a cara toda vermelha, inchada, ardendo, as pipocas transformadas em crateras vulcânicas, uma delícia. Parecia a prima do Frankenstein. Na rua, no ponto de ônibus, esbarro com quem? Com o Saulo, claro. Tentei me esconder olhando para o chão, mas ele me viu. E levou um susto que mal conseguiu disfarçar.
— Malu? É você mesmo?
— Arrã — respondi, ainda olhando para os pés.
— O que aconteceu? Foi picada por um enxame de abelhas?
— Não, fui fazer uma limpeza de pele, amanhã meu rosto volta ao normal — disse, morta de vergonha.
— Ufa! Ainda bem! Um rosto bonito desses não merece ficar assim.
Vibrei por dentro. Saulo, o rosto mais lindo da escola, achava que o meu é que era bonito! Que sonho!
Pegamos o mesmo ônibus e nem vimos a hora passar falando, claro, de espinhas e do problema que elas representam para os adolescentes. Assunto supermaduro. Viva as espinhas!
